Arquivo para Dezembro, 2008

31
Dez
08

Sidra ou champanhe???

Há poucas horas passei por uma situação que me lembrou um pouco um post que a jornalista Ana Estela de Sousa Pinto colocou há pouco tempo no blog Novo em Folha falando sobre o direito que qualquer repórter tem de não saber de tudo, mas da necessidade de nos inteiramos um pouco sobre aquilo que estamos perguntando.

Fui às ruas – coisas que repórter de Economia de jornal pequeno quase não faz – para ver a movimentação do comércio nas últimas horas antes da “virada”. Em um dos shoppings da cidade, resolvi entrar em uma das mais famosas lojas de bebidas importadas e finas da capital para saber como estavam às vendas. Os vendedores estavam enlouquecidos e nada receptivos. Quando entrei na loja, me apresentei a um deles e expliquei: “Estou fazendo uma matéria sobre as vendas e queria falar com a gerente sobre a venda de bebidas com champanhe, vinhos e sidra”. Qual não foi  minha surpresa ao ver o vendedor dar uma gargalhada e dizer em tom de deboche: “Sidra? A gente não vende sidra aqui, não!”.

Como este repórter tem um pavio curto por natureza, soltei: “Desculpa! Sou pobre, não tomo champanhe! Comemoro o ano novo com sidra, mesmo!”. O vendedor ficou sem graça, se retirou e foi chamar a gerente que informou estar muito ocupada. Uma outra vendedora veio e se dispôs a atender a equipe, mas ficou agindo como quem trata alguém pouco importante. Fiquei chateado com aquela postura, agradeci a atenção e fui embora (nesse caso, a informação não era relevante porque eu já tinha pego dados sobre bebidas com os supermercados). Resultado: não citei nada da loja na matéria. Mesmo assim fiquei pensando: será que eu era obrigado a entender de vinhos em uma matéria comum do dia-a-dia?

31
Dez
08

Renúncias

Quem decidiu ser repórter, tem que estar ciente que um veículo de comunicação não pára. Pelo menos não por muito tempo como outras empresas particulares. Então, em épocas como o fim de ano, esqueça do Natal em família e o réveillon com os amigos da maneira como você estava acostumado. Hoje estou de plantão na Tribuna, para fecharmos o jornal de amanhã. Claro, trabalharemos em um horário atípico (somente pela manhã e início da tarde). Tenho a vantagem de ser repórter de uma editoria especializada e não ter que passar por coisas como cobrir a  Missa do Galo, no Natal, e a queima de fogos, no dia 31. Porém, já passei por isso quando fui repórter de Cidades: teve um ano que fiquei com a Ronda Policial e a busca pelo primeiro bebê (que nada tem a dizer junto com sua mãe cansada e descabelada que acabou de sair de um parto de madrugada, mas é pauta clássica de toda primeira edição do ano). Acredito que essas renúncias fazem parte da rotina de quem está aprendendo. São necessárias principalmente para quem está començando saber que não é só de glamour que vive o jornalismo.

31
Dez
08

Fogos, champanhe e… Feliz 2009!!!!

champagne12008 terminou e deixou suas lições. Não posso dizer que foi um ano maravilhoso para mim. Perdi muitas coisas importantes que jamais serão recuperadas. Por outro lado, não vou afirmar que foi um ano péssimo. As quedas me ensinaram a superar alguns obstáculos, crescer, ser mais forte.

Que 2009 venha cheio de novidades, conquistas e, claro, novos obstáculos para transpor. Um ano cheio de pautas interessantes, fontes menos chatas, horários menos corridos e mais dinheiro no bolso… :D Feliz Ano Novo para todos!!!!

18
Dez
08

Checar, checar e checar…

Parece... mas, não é!

Parece... mas, não é!

Redação é assim: quase um pedacinho do inferno! Um lugar onde as pessoas falam (e alto), o telefone toca (o tempo todo), todo mundo está sempre muito ocupado e o mundo acaba na hora do dead line. Nesse clima de corre-corre o risco de errar é grande! Ia cometendo um erro daqueles imperdoáveis hoje.

Como já contei em um post anterior, estou sozinho com meu editor por causa da viagem de minha parceira repórter ao Rio de Janeiro. Resultado: tenho pautas do dia e minha especial de domingo pendentes. Para esta última, tenho cerca de umas dez pessoas para entrevistar. Peguei a lista, digitei na tela do computador e comecei a pedir as ligações à telefonista. Infelizmente, as fontes não seguem nossa vontade, atendem quando querem. Então, com o tempo, a “ordem” das ligações começou a mudar. Chegou uma hora que o telefone tocou com a ligação pedida, e eu tinha certeza (???) que era o “entrevistado A”. Perguntei quem era, me identifiquei e comecei a fazer perguntas. No finalzinho, meu “instinto de repórter” fez acender uma luz amarela (para usar uma expressão típica dos especialistas em economia). Resolvi conferir - como quem não quer nada – o nome exato da entidade que o “entrevistado A” representava. Oops! Não era ele, era o “entrevistado B”.

Estou saindo de uma crise de faringite, minha voz não está muito bem, então tenho falado mais baixo do que o habitual. A minha fonte era meio surda (acreditem, vocês ainda vão entrevistar alguém assim) e, com o barulho do fechamento, não escutou direito quando eu perguntei “sr. entrevistado A?” ao atender. Juntou com o fato das fontes serem representantes de um mesmo setor e acabarem tendo quase que a mesma opinião.

O que eu fiz? O certo: tive que pedir desculpas e dizer para ele que havia me confundido entre as fontes. As respostas não estavam perdidas porque, como eu já disse as perguntas para um, complementavam o que eu iria questionar com outro. Mesmo assim, tive que continuar a entrevista e fazer as perguntas que faltavam.

Publicar uma matéria em um jornal é reduzir ao máximo as dúvidas. O jornalista Vicente Serejo, que foi meu professor na UFRN, disse uma vez em sala de aula que a gente só deve sair de uma entrevista quando tiver esgotado nossa capacidade de perguntar, eliminando as maiores possibilidades de dúvidas. Mesmo com pressa, se eu não tivesse feito um questionamento aparentemente bobo (“qual é exatamente o nome da entidade que o senhor representa?”) poderia ter atribuído uma declaração a quem não era devido. Ufa!!!

17
Dez
08

“transmimento” de “pensação”*?

Ontem fiz uma matéria com dados do IBGE, sobre a evolução do Produto Interno Bruto (PIB) dos municípios. Além de um extenso material com dezenas de tabelas, a assessoria local do órgão nos enviou um resumo com os destaques de números do Rio Grande do Norte. Como esta semana estamos só eu e meu editor (minha colega Emídia Felipe está no Rio de Janeiro cobrindo os leilões da ANP), resolvi me fixar nesses dados mais resumidos. Acabei destacando – sem perceber, claro – algo que já havia sido notícia do jornal no mês passado e… pimba! Ganhamos uma manchete repetida.

Vejam aqui os “títulos-gêmeos”:
Matéria de 17 de dezembro de 2008
Matéria de 15 de novembro de 2008

Antes que alguém atire a primeira pedra, nenhuma das matérias está errada (mas também não teria vergonha de colocar aqui se estivesse). Apenas existia um dado na pesquisa que era exatamente o mesmo que já havia sido destacado 30 dias antes no jornal. No primeiro parágrafo da minha matéria, havia informações novas sobre a participação de cinco municípios potiguares na composição do PIB, mas acabei destacando o número total por dar uma visão geral do estado ao leitor.

O título não é obrigação do repórter, mas aqui no jornal temos a liberdade de deixar uma sugestão para o editor. Por isso, fica a minha mea culpa. A Língua Portuguesa tem milhares de verbetes e as possibilidades de combiná-los de maneira inovadora é infinita. Às vezes, na necessidade de sermos objetivos (uma das características essenciais do jornalismo) acabamos partindo para soluções “práticas” demais. “PIB do RN cresce 4,8% em 2006″ é, talvez, a forma mais objetiva e clara de resumir o principal ponto da matéria, mas estava muito próxima do lugar comum. Do mesmo jeito que saiu repetido dentro do próprio jornal, poderia ter sido em um concorrente.

*”Transmimento” de “pensação” era a forma como um professor de História do 2º grau apelidava a famosa “cola”. Ele se divertia em colocar a mensagem junto das respostas fraudadas e esperar a pergunta dos alunos sobre o que significava aquele trocadilho.

16
Dez
08

Veja libera geral…

Uma ótima notícia para quem quer acompanhar a história através de uma das revistas mais antigas do país. Aproveitando a comemoração dos seus 40 anos, a revista Veja digitalizou seu acervo. Um trabalho gigantesco: foram mais de 9 mil arquivos digitalizados em cinco meses por 30 funcionários, que se revezavam em três turnos de trabalho. Acesse aqui o acervo digital de Veja.

15
Dez
08

Revolta jornalística

Ele já virou sensação. É ídolo dos jornalistas de todo o mundo: fez o que muita gente queria ter feito. Muntadar al-Zaidi, correspondente no Iraque da TV egípcia al-Baghdadia, atirou seus sapatos no presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, durante a visita surpresa que líder americano fez ao Afeganistão e Iraque. Tudo isso enquanto chamava Bush de “cão”. A cena deve ter sido hilária (para quem assistia) e ao mesmo tempo humilhante para o presidente. Naquele país, o gesto é considerado uma das piores ofensas possíveis. O Washington Post destaca o assunto (e tem vídeo!!!).

Exageros à parte, tem certas fontes que eu gostaria de jogar um sapato (ou uma pedra, ou mesmo xingar). E você? Já teve vontade de jogar um sapato em alguém?

15
Dez
08

A força dos blogs

Moraes Neto

Foto: Moraes Neto

Estava comentando com uma amiga que, quando entrei na universidade, sempre tive o sonho de ser repórter de impresso. Meta alcançada, cada vez mais percebo que nunca mais poderei ser repórter de “impresso” no conceito antigo do termo: aqueles jornalistas que só escrevem para um periódico que vem em papel e depois são reciclados para embrulhar peixe e objetos frágeis nas mudanças. Prova disso é que hoje estou aqui, escrevendo em um blog (e gostando).

Para me inspirar ainda mais, tive a oportunidade de assistir hoje – durante o almoço de confraternização oferecido pela Câmara de Dirigente Lojista de Natal (CDL Natal) – a uma palestra da jornalista e blogueira Renata Leal, repórter de tecnologia da revista Época e responsável pelo blog Bombou na Web. Renata fez algumas colocações muito interessantes sobre o crescimento da “blogosfera” e a necessidade das empresas jornalísticas (e os jornalistas também) perceberem este novo momento.

Consegui gravar a palestra que durou quase uma hora. Como o arquivo ficaria muito grande, vou dar uma editada de alguns trechos mais legais para publicar aqui depois. Como estamos no meio da tarde – e nenhuma das minhas pautas saiu do lugar ainda – essa “tarefa” fica para a noite.

Leia mais sobre a visita de Renata Leal a Natal:

Mercado.com: CDL Natal promove confraternização com jornalistas: blogueira da Época faz palestra

DN Online: Jornalista da Época faz palestra em Natal e comenta crescimento dos blogs

12
Dez
08

Justiça com as próprias mãos?

O tema não tem muito a ver com a idéia do Repórter todo Dia, mas não resisti a colocar o comentário aqui. Recebi este texto através do Filtro, uma espécie de guia de notícias da revista Época.

Justiça
5. Para 43% dos brasileiros, “bandido bom é bandido morto”
Sessenta anos depois da Declaração Universal dos Direitos Humanos, uma pesquisa encomendada pelo governo federal, com 2.011 pessoas em 150 municípios, mostra que uma parcela significativa da população tem níveis de intolerância preocupantes. Segundo a Folha (para assinantes), ao se manifestarem sobre a frase popular “bandido bom é bandido morto”, 43% dos entrevistados disseram concordar totalmente ou em parte. Outros 34% disseram estar de acordo com a idéia de que “direitos humanos devem ser só para pessoas direitas”. Mesmo que muitas pessoas vivam numa situação de desespero por causa da violência em suas comunidades, é alarmante imaginar que políticas de repressão pura sejam acolhidas sem muita reflexão.

Também acho preocupante essa visão. Concordo que devemos ter penas severas para quem pratica crimes, mas a partir do momento em que a gente defende uma polícia que sempre atira para matar não nos colocamos em risco também? E depois? Como vamos reclamar de casos como o do menino João Roberto? E do estudante Diego aqui do Rio Grande do Norte?




Sobre o blog

Se jornalismo é a arte de “contar histórias”, esse blog quer contar as “histórias por trás das histórias” que saem nas páginas do jornal. Produzir notícias não é um processo fácil. Porém, é uma atividade que pode ser mais do que divertida para quem é apaixonado pela profissão de repórter. Por isso, este é um espaço para “causos”, comentários de notícias e algumas questões sobre as transformações que o jornalismo passa. Embora o foco sejam os estudantes e os “focas”, o objetivo é muito mais debater e trocar idéias do que ensinar.

Passarinho