Arquivo para Novembro, 2008

29
Nov
08

apurar é que é certo

Hoje aprendi um pouco mais sobre a necessidade de ser firme com a equipe que sai com você (fotógrafo e motorista). Não chega a ser uma regra, mas o repórter é meio que “chefe” do grupo que vai para a rua. É ele que – depois das orientações do chefe de reportagem – está responsável por decidir se o carro deve ir primeiro para um lugar ou outro, se uma foto é necessária ou não. Mas, pessoalmente, gosto de fazer as coisas em comum acordo, perguntar se o fotógrafo e motorista concordam.

Só que hoje tive que tomar uma decisão unilateral para não perder uma informação importante. Sendo sábado, a equipe está de plantão e eu estava com a ronda policial. Logo que saí de casa soube de uma tentativa de fuga na Delegacia de Plantão da Zona Sul* e, ao chegar na redação, apurei que também houve uma tentativa em uma carceragem provisória vizinha ao jornal e uma confusão no centro para adolescentes infratores. O problema deste segundo ponto é que eu não sabia exatamente onde ficava e o motorista também não sabia ao certo.

Me confiei no fotógrafo – que é extremamente experiente e competente -, mas não contava que ele ficaria fazendo corpo mole. O motorista foi duas vezes a lugares errados (onde pensávamos que fosse o centro de adolescentes) para só então o fotógrafo dizer que sabia onde era. Quando chegamos, os funcionários informaram que a confusão não tinha sido ali. Mas que havia a possibilidade de ser em outra unidade (já tínhamos inclusive passado por uma delas sem descer do carro).

Quando entramos no carro, o fotógrafo disse: “aqui não tem nada, então vamos embora para o jornal”. E aí eu tive que dizer: “de jeito nenhum! preciso ir lá e conferir se não houve nada mesmo”. Cara feia foi o que não faltou. Quando chegamos, provei que estava certo. Apesar dos funcionários não quererem falar, um deles foi soltando logo que tinham queimado um colchão à noite.  Percebeu a besteira que fez e não quis falar mais. Para o repórter atento, porém foi o princípio da matéria.

Já havia cometido dois erros. O primeiro é que eu deveria ter sido claro com o motorista e perguntado se ele sabia, com certeza, onde ficava o lugar. Por isso, perdemos tempo. O segundo foi confiar somente no fotógrafo que, com preguiça, não queria fazer nem o trabalho dele, quanto mais o meu. Neste caso, deveria ter ligado para a redação para me orientar sobre onde seria o local exato. Quando bati o pé para ir no lugar certo conferir, cumpri minha missão de repórter (e naturalmente curioso): ir ver de perto o que me contaram.

* Esse post está enorme, mas vale o comentário. Sempre faço ronda nos plantões de sábado e gosto muito. A Delegacia de Plantão da Zona Sul fica a cerca de duas quadras do meu apartamento. Então, sempre saio de casa mais cedo para apurar a informação mais quente, porque se deixar para ligar da redação a equipe de plantão já saiu e a que fica não sabe falar nada. Não faço isso só pelo jornal, se você perguntar. É minha necessidade de repórter, meu esforço pessoal para fazer um bom trabalho. Se não faço, sinto que deixei o trabalho incompleto.

28
Nov
08

Cobertura em Santa Catarina

Acho o texto grande demais para um post do blog, mas não poderia deixar de reproduzir aqui esse material que está no site do Comunique-se. Como é só para cadastrados e nem todo mundo é (mas deveria ser. É de graça!) vou colocar aqui porque conta um depoimento muito interessante de um dos jornalistas que está cobrindo a enchente em Santa Catarina.

 Jornalista conta dificuldades da cobertura dos temporais em Santa Catarina

Sérgio Matsuura, do Rio de Janeiro

 
“Logo que chegamos, fomos para um abrigo e as histórias trágicas começaram a aparecer. A primeira foi a do Juliano. Ele contou que no momento do desabamento estava segurando a mulher com uma mão e a filha com a outra. Ele não aguentou e teve que soltar a mulher, mas aconteceu um outro desabamento que levou a filha também. Ele disse um frase que me chocou muito: ‘em um minuto eu perdi as duas’. Isso é o que a gente está cobrindo todos os dias. Acordo às 6h da manhã e vou dormir à 1h, ou mais tarde”.

Esse é o depoimento do jornalista Eduardo Nunomura, enviado especial de O Estado de S.Paulo para cobrir os temporais em Santa Catarina. Para fazer a informação chegar à casa do leitor, os repórteres se desdobram e vivem, junto com a população das cidades atingidas, as dificuldades causadas pela tragédia. Às vezes, sobrevivem, como foi o caso do fotógrafo que acompanha Nunomura, Filipe Araújo.

“O Filipe estava no morro do Baú (em Ilhota), lugar onde aconteceu o maior número de mortes em Santa Catarina, quando a terra cedeu. Ele estava a menos de 500 metros do desabamento. Ele teve que sair correndo. Foi caso de vida ou morte”, conta Nunomura.

Helicóptero resgata jornalista
O outro jornalista enviado pelo Estadão à Santa Catarina, Rodrigo Brancatelli, também passou por problemas. Ele teve que ser resgatado por um helicóptero da Marinha. Nunomura conta que ainda não conversou com Brancatelli, mas sabe que ele está bem.

As dificuldades da apuração
Além dos riscos, os jornalistas têm que se preocupar em dar a melhor história e fazer a melhor apuração possível. O tempo da matéria é diferente. O excesso de informações desencontradas acaba causando a desinformação, que pode induzir o jornalista ao erro.

“A gente tem que filtrar notícias, apurar muito bem. Tem que ser muito rápido. Tem que saber se a fonte é fidedigna ou não em minutos. Ontem, falaram que apareceram sete corpos no pé do morro do Baú. Eu não podia dar sem conferir. Eu precisava ver os corpos”.

“As pessoas da redação pensam só em publicar”
O receio de tomar um furo e as dificuldades de trabalhar também afetam a atividade do jornalista. Existem muitos fatos acontecendo em lugares diferentes e ao mesmo tempo. Nunomura conta que, às vezes, podem acontecer apostas erradas. Como exemplo, cita o caso do saque a um supermercado. “Quem poderia prever que um saque aconteceria? E saque não dá para correr atrás porque ele acontece naquele exato momento. Não adianta ir depois”.

“Existem situações como essas, que as pessoas da redação não têm noção do que está acontecendo e ficam pensando só em publicar. Nós, aqui, temos que colocar as nossas vidas em segurança em primeiro lugar. Exemplo é o caso da fotografia do Filipe. Não dá para pedir um ângulo melhor. Ele tinha que se preocupar com a vida dele”, comenta.

Problemas com celulares dificulta cobertura
Para realizar a cobertura, o Estadão enviou duas equipes, com repórter e fotógrafo, deslocou um freelancer para cobrir as informações oficiais e conta com o apoio da Agência RBS. A editora do caderno Metrópole, Viviane Kulczynski, diz que, mesmo com uma equipe grande, existem dificuldades.

“Os celulares não estão pegando direito. Em pleno século XXI temos que recorrer ao orelhão”, diz Viviane.

Fora todos essas dificuldades do fazer jornalístico, existe uma outra: a conversa com as pessoas.

“Uma coisa que é horrível de fazer, mas que a gente faz até sem querer, quase que automaticamente, é o hábito de perguntar se está tudo bem. Claro que não está nada bem”, conta Nunomura.

28
Nov
08

postar é preciso

Quando me propus a colocar um blog na internet sabia que precisava mantê-lo sempre atualizado com uma certa freqüência. Porque blog é assim mesmo: exige tempo, dedicação, trabalho. É muito mais interativo do que escrever para um jornal. Tem gente que entra, lê, gosta da idéia, mas você nem sabe quem é. E mesmo assim a pessoa continua acompanhando. Outros vão além: comentam e estimulam o blogueiro a continuar. Este post é sobre isso mesmo. A necessidade de postar e sempre manter atualizado o meu blog. Como eu coloquei nas minhas primeiras palavras, a linguagem da internet ainda é nova para mim e o Repórter Todo Dia um exercício de iniciante na blogosfera. Dentro do tema, deixo uma frase do jornalista Juca Kfouri, que possui um blog de esportes, e deixa claro: “Eu sinto que meu blog exige mais de mim que qualquer outro veículo, mais que as grandes mídias”. Em tempo, ele é um dos palestrantes do Seminário de Jornalismo Esportivo que ocorrerá em São Paulo no dia 12 de dezembro, promovido pelo Comunique-se.

20
Nov
08

o xis da questão

Depois de duas semanas meio “off” por causa das viagens para um caderno especial que está sendo produzido, estou de volta a Natal e ao acesso à internet. A Caixa de Entrada do e-mail tinha mais de 100 novas mensagens, uma prova de que quem aceita ser jornalista não pode se dar ao luxo de esquecer do mundo nem por um dia. Uma boa novidade, porém, é que fui selecionado para fazer o 11º Curso Desenvolvimento Humano para Jornalistas promovido online pela Abraji. Espero trazer alguns dos debates para cá.

Enquanto vou me atualizando, deixo aqui uma dica que veio por e-mail da minha colega jornalista Emídia Felipe, repórter de Economia da Tribuna do Norte e responsável pelo blog Mercado.com. Trata-se do blog O Xis da Questão, do professor Manuel Carlos Chaparro, doutor em Ciências da Comunicação e professor de Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo. O projeto também traz verdadeiras aulas de jornalismo que, com mais calma, vou poder acompanhar. Abaixo, um dos vídeo-aulas do professor Chaparro sobre a pauta.

14
Nov
08

Voluntários, uni-vos!!!

Como coloquei em um post anterior, ando fazendo umas viagens e produzindo matérias para o caderno Motores do Desenvolvimento da Tribuna do Norte. Com isso, não tenho tido muito tempo para atualizar o blog e até me atualizar sobre o que está acontecendo no mundo. Só para não perder o hábito, vi um post bastante interessante no Novo em Folha e resolvi colocar a dica por aqui também. O site Apuro, que funciona como um fórum de métodos de apuração jornalística da Universidade Federal de Santa Catarina, está recrutando voluntários. É uma idéia bastante interessante compartilhar estas dicas. A própria Ana Estela, responsável pelo Novo em Folha, comentou que é um hábito que os jornalistas brasileiros precisam criar: a troca de informações. O problema é que todo mundo olha o outro colega sempre como um concorrente pronto a se apropriar daquilo que você tem de bom. Como não gosto desse tipo de comportamento, já me cadastrei no Apuro e espero que mais gente o faça.

11
Nov
08

Fórum de Comunicação é realizado em fortaleza

Mais de 250 profissionais de comunicação estão participando em Fortaleza do 2º Fórum de Comunicação do Governo Federal, promovido pelo Banco do Nordeste. O evento tem o objetivo de promover o nivelamento de profissionais de comunicação e cultura de instituições ligadas ao Governo Federal, abordando temas como o papel da imprensa no controle a políticas públicas, desafios da comunicação interna e reputação e imagem das empresas.

Embora tenha esse público-alvo, tenho certeza que seria uma ótima oportunidade de aprendizado e debate até mesmo para os jornalistas que cobrem a área pública. Hoje, os diretores de redação dos jornais O Povo (Gualter Jorge), A Tarde (Patrícia Moreira) e Jornal do Commércio (Fabiani Cavalcanti), debatem o tema “Do release à pauta jornalística”. Na programação do seminário está prevista também uma conferência com o jornalista e consultor, Mário Rosa, especialista em gerenciamento de crises.

Diante de tanta gente importante, espero poder participar da próxima edição!

09
Nov
08

olhando pelo lado de fora

A coisa que mais sinto falta desde que me tornei repórter de Economia e que era sempre (ou na maioria das vezes) possível na editoria de Cidades é a oportunidade de usar plenamente os cinco sentidos: ver, ouvir, cheirar, tocar, provar a matéria. Durante duas semanas, estou podendo relembrar um pouco disso. Viajando com o fotógrafo Aléx Régis pelas praias do Litoral Norte e Sul do Rio Grande do Norte temos como missão encontrar personagens e registrar belas imagens de nossas praias que comporão parte do caderno sobre Turismo, do projeto Motores do Desenvolvimento da Tribuna do Norte.

Desde ontem, quando paramos em Barra de Cunhaú tenho me sentido melhor. Não é só porque o ar é diferente. Não é só porque, mesmo a trabalho somos um pouco de turistas também. É porque, na rua, você pode fugir do convencional. As entrevistas vão se transformando em conversas informais, a cabeça vai pipocando de idéias que fazem o tec-tec das teclas do laptop ser cada vez mais rápido enquanto você revisa as anotações do bloquinho.

E o lead? Como pensar nele quando você pôde tocar a água escura da Lagoa da Coca-cola, em Baía Formosa? Ou como tentar ser burocrático se você caminhou descalço pela areia branca da praia enquanto um guia local conta sua história e como a presença dos turistas está transformando sua vida e do município onde nasceu? Pra PQP com o lead. Quero mais é traduzir agora para o meu leitor, em palavras, aquilo que pude sentir. Se ele, lendo texto, começar a ouvir de repente o vento que sopra em Pipa, meu dia está ganho.

07
Nov
08

invasão de privacidade

Esta vem do informativo O Filtro, da revista Época:

Está na manchete da Folha (para assinantes) a informação de que a Polícia Federal quebrou, sem autorização judicial, o sigilo telefônico de aparelhos Nextel de jornalistas da TV Globo (sem citar nomes) para tentar descobrir se o delegado Protógenes Queiroz, que comandava a Operação Satiagraha, avisou repórteres sobre a ação policial. A reportagem diz que “outras autoridades do caso foram consultadas pela PF sobre a quebra de sigilo telefônico dos jornalistas que estavam nos locais de busca, e se opuseram ao pedido, entendendo que tal iniciativa violaria o direito constitucional de sigilo da fonte”. Mesmo assim, a PF encaminhou um ofício à Nextel, sem aval da Justiça, e conseguiu da operadora os números de identificação dos celulares e de antenas, o que permite a localização física do cliente. Se Protógenes antecipou mesmo informações sobre a operação e se a PF realmente usou de meio ilícito para monitorar jornalistas, não há boa conduta em nenhum dos lados dessa história.

O artigo 5º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros diz: “É direito do jornalista resguardar o sigilo da fonte”. Certa vez, um colega de redação estava comentando que os celulares de todos (ou pelo menos a maioria) dos jornalistas estariam grampeados. Lenda urbana ou ficção acho inadimissível quebrar os sigilos telefônicos dos repórteres ferindo o nosso código de ética.

(Atualização às 19h34) O Comunique-se (para cadastrados) traz uma matéria falando sobre uma nota da Polícia Federal. Segue um trecho:

A Polícia Federal divulgou nota contestando as informações publicadas na Folha de S. Paulo desta sexta-feira (07/11). Nela, a PF afirma que não quebrou sigilo telefônico sem autorização judicial. O que teria acontecido seria uma requisição para que a Nextel informasse a localização das torres de retransmissão da empresa situadas próximas à Superintendência da PF em São Paulo e a alguns dos endereços alvos da Operação Satiagraha.

O comunicado diz ainda que a “Polícia Federal não investiga jornalistas no referido Inquérito Policial, pois respeita a norma constitucional que garante o sigilo de fonte desses profissionais. A investigação visa à apuração de vazamentos de dados sigilosos da Operação Satiagraha”.

06
Nov
08

ainda mais obama

Complementando o post anterior, sobre a cobertura da eleição de Obama, vale a pena ver também o blog Faz Caber, da equipe de diagramação e design da Revista Época. Lá temos as capas dos principais jornais do mundo com a notícia sobre o novo presidente. O Midialogismo, de Ricardo Essenfelder, comenta hoje também as capas dos diários americanos.

05
Nov
08

o quarto poder

barackHoje não se falou em outra coisa a não ser a eleição de Barack Obama nos Estados Unidos. Aliás, quem trabalha em redação deve ter cansado de ouvir o nome do novo comandante da terra do Tio Sam. Achei interessante uma notícia publicada no 1º Caderno do site Comunique-se (para cadastrados) com informações da Agência EFE. A matéria fala de uma pesquisa mostrando que, para a maioria dos eleitores, a imprensa ajudou a eleger Obama.

Segundo o Instituto Rasmussen, “51% dos eleitores acham que a mídia deu um empurrão na escolha dos americanos, e apenas 7% acreditam que a imprensa foi favorável ao republicano John McCain”, diz o Comunique-se. Será que ainda somos o Quarto Poder? Embora simpatize com Obama, não duvido…

MAIS OBAMA – O jornalista Renato Essenfelder, em seu blog Midialogismo, também fez uma análise bastante interessante das capas dos principais jornais brasileiros sobre a eleição americana. Se eu ainda fosse estudante, com certeza, iria querer debater esses assuntos em sala de aula…




Sobre o blog

Se jornalismo é a arte de “contar histórias”, esse blog quer contar as “histórias por trás das histórias” que saem nas páginas do jornal. Produzir notícias não é um processo fácil. Porém, é uma atividade que pode ser mais do que divertida para quem é apaixonado pela profissão de repórter. Por isso, este é um espaço para “causos”, comentários de notícias e algumas questões sobre as transformações que o jornalismo passa. Embora o foco sejam os estudantes e os “focas”, o objetivo é muito mais debater e trocar idéias do que ensinar.

Passarinho